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Fósforo que já está no solo pode mudar a conta dos fertilizantes — e os efeitos chegam à agroindústria

Pesquisas reunidas pela USP mostram como plantas de cobertura, plantio direto e integração de sistemas podem melhorar o aproveitamento de nutrientes; efeitos potenciais vão da indústria de fertilizantes à previsibilidade de matéria-prima para fábricas de alimentos, rações e biocombustíveis

Durante décadas, boa parte da discussão sobre produtividade agrícola esteve concentrada em uma pergunta: quanto fertilizante é necessário colocar no solo?

Uma nova geração de pesquisas está acrescentando outra: quanto dos nutrientes que já foram aplicados pode voltar a ser aproveitado?

Essa mudança aparentemente técnica pode ter implicações muito além da lavoura.

A quinta edição da publicação científica Soil Health News – Manejo do solo e ciclagem de nutrientes, produzida no âmbito do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical da Universidade de São Paulo (CCARBON/USP) e da Brazilian Soil Health Partnership, reúne resultados que ajudam a entender essa transformação.

Um dos trabalhos mostra que o nabo forrageiro consegue mobilizar fósforo que permanecia fortemente ligado a minerais do solo e, portanto, pouco acessível às plantas. Outro demonstra que diferentes sistemas de manejo podem alterar significativamente o estoque de carbono até um metro de profundidade.

Para a agroindústria, o interesse não está apenas na ciência do solo.

Está no que acontece depois dela.

Se uma lavoura consegue utilizar melhor os nutrientes já existentes, reduzir perdas e tornar a produção mais resiliente, os efeitos podem alcançar fabricantes de fertilizantes e sementes, empresas de máquinas agrícolas, tradings, fábricas de ração, esmagadoras de soja, frigoríficos, usinas e indústrias de alimentos.

O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza

A discussão ganha peso econômico porque a agricultura brasileira permanece fortemente dependente do mercado internacional de fertilizantes.

Em abril de 2026, o Ministério da Agricultura informou que cerca de 85% dos fertilizantes utilizados no Brasil são importados. O próprio Plano Nacional de Fertilizantes busca reduzir essa vulnerabilidade e elevar a participação da produção brasileira no abastecimento interno.

Em 2025, as importações brasileiras de adubos e fertilizantes químicos chegaram a aproximadamente 45,5 milhões de toneladas e US$ 15,5 bilhões, de acordo com dados consolidados do comércio exterior brasileiro.

No caso específico dos fertilizantes fosfatados, o Ministério da Fazenda aponta que as importações brasileiras chegaram a aproximadamente US$ 4 bilhões em 2025, tendo entre suas principais origens Marrocos, Rússia, Arábia Saudita, China e Egito.

É justamente o fósforo que aparece no centro de uma das pesquisas destacadas pela publicação da USP.

Parte do fertilizante aplicado no passado continua no solo

Quando fósforo é aplicado por meio da adubação, nem todo o nutriente é imediatamente absorvido pela cultura.

Em solos tropicais altamente intemperizados, parte dele pode se associar fortemente a compostos de ferro e alumínio e permanecer acumulada durante anos. É o chamado fósforo legado, ou legacy phosphorus.

Isso não significa que o nutriente esteja simplesmente disponível para a próxima safra.

O desafio é justamente retirá-lo dessas ligações químicas.

Pesquisadores ligados à Universidade Politécnica Mohammed VI, no Marrocos, e à USP compararam a capacidade do nabo forrageiro e do milho de acessar esse reservatório.

E encontraram uma diferença considerável entre as duas espécies.

Nabo forrageiro recuperou mais fósforo que o milho

Os pesquisadores descobriram que as próprias raízes modificam quimicamente a região do solo ao seu redor, conhecida como rizosfera.

No caso do nabo forrageiro, essa transformação foi mais intensa.

A planta liberou aproximadamente 2,14 vezes mais carbono por meio de exsudatos radiculares que o milho. Os pesquisadores identificaram sinais compatíveis com a presença de ácidos orgânicos, compostos capazes de contribuir para liberar fósforo retido nos minerais.

A diferença apareceu também na recuperação efetiva do nutriente.

No experimento, o nabo forrageiro recuperou 37% do fósforo associado à boehmita, utilizada para representar formas ligadas ao alumínio, e 26% daquele associado à hematita, relacionada ao ferro.

O milho recuperou 23% e 19%, respectivamente.

Os resultados são experimentais e não significam que uma fazenda possa simplesmente reduzir a adubação em determinada porcentagem.

O que eles demonstram é algo potencialmente mais relevante no longo prazo: a quantidade total de fósforo presente no solo não é suficiente para determinar quanto desse nutriente uma cultura poderá utilizar.

A espécie cultivada e a química criada por suas raízes também importam.

O fertilizante “preso” pode voltar para o ciclo produtivo

A conclusão dos pesquisadores é particularmente interessante para sistemas de rotação de culturas.

O fósforo acumulado por fertilizações anteriores não precisa necessariamente ser tratado como definitivamente perdido. Parte dele pode voltar ao ciclo quando são utilizadas espécies capazes de mobilizá-lo.

O nabo forrageiro, por exemplo, pode incorporar o fósforo recuperado em sua biomassa. Depois da decomposição dos resíduos vegetais, parte desse nutriente retorna ao sistema e pode ficar disponível para as culturas seguintes.

É aí que uma descoberta de ciência do solo começa a encontrar a economia industrial.

Em uma agricultura dependente de fertilizantes importados, aumentar a eficiência de uso de um nutriente também significa diminuir a quantidade desperdiçada de um insumo industrial caro e exposto ao câmbio, frete internacional e riscos geopolíticos.

Isso não elimina a necessidade de fertilizantes fosfatados.

Mas pode alterar a forma como eles são utilizados.

Para a indústria de fertilizantes, eficiência pode se tornar tão importante quanto volume

Seria precipitado interpretar essas pesquisas como uma ameaça à indústria de fertilizantes.

O Brasil continua sendo um dos grandes mercados mundiais de nutrientes agrícolas e possui uma produção agropecuária de escala crescente.

A consequência mais provável de avanços desse tipo é uma mudança na própria proposta de valor do setor.

Além de vender toneladas de nutrientes, fabricantes, misturadores e distribuidores tendem a conviver cada vez mais com uma agricultura interessada em quanto do produto aplicado efetivamente entra no sistema produtivo.

Esse movimento abre espaço para formulações mais eficientes, fertilizantes especiais, tecnologias de liberação, bioinsumos, inoculantes, análise de solo, agricultura de precisão e recomendações cada vez mais específicas para cada ambiente produtivo.

A estratégia oficial brasileira já caminha parcialmente nessa direção. O Plano Nacional de Fertilizantes inclui entre seus objetivos o desenvolvimento de tecnologias adequadas às condições tropicais e o fortalecimento da cadeia de produção e distribuição de nutrientes.

A indústria, portanto, pode acabar vendendo não apenas mais nutriente, mas mais eficiência por unidade de nutriente aplicada.

A indústria de sementes também entra nessa cadeia

Existe outro elo industrial diretamente relacionado ao avanço dessas técnicas: as sementes.

Se culturas de cobertura passam a exercer funções agronômicas mais sofisticadas — recuperar nutrientes, produzir biomassa, proteger o solo ou melhorar determinadas propriedades físicas — a escolha da espécie deixa de ser apenas uma decisão secundária entre duas safras comerciais.

Ela passa a integrar a estratégia de produção.

Na entrevista publicada pela Soil Health News, o pesquisador Rodrigo Estevam Munhoz de Almeida, da Embrapa Pesca e Aquicultura, destaca justamente a combinação de gramíneas, leguminosas, plantas de cobertura e sistemas consorciados como uma maneira de intensificar a ciclagem dos nutrientes.

Isso pode aumentar a importância econômica de empresas que desenvolvem, produzem, beneficiam e comercializam sementes destinadas à cobertura e à diversificação dos sistemas agrícolas.

Não se trata somente de vender sementes adicionais.

O mercado pode caminhar para produtos selecionados de acordo com funções específicas dentro do solo.

Máquinas agrícolas também precisam acompanhar sistemas mais complexos

Quanto mais diversificado é o sistema de produção, maior tende a ser também a complexidade operacional.

Produzir uma safra comercial, manter palhada, implantar plantas de cobertura e trabalhar com consórcios exige planejamento de janelas de semeadura, dessecação e manejo de grandes volumes de biomassa.

O próprio pesquisador entrevistado pela publicação chama atenção para desafios operacionais desse tipo. Grandes quantidades de palhada podem dificultar a semeadura e o estabelecimento da cultura quando o sistema não é bem manejado.

Para fabricantes de máquinas e implementos, essa transformação cria um campo diferente de inovação.

Semeadoras capazes de trabalhar em altos volumes de palhada, sistemas de distribuição de sementes para culturas de cobertura, equipamentos destinados ao manejo de resíduos e tecnologias de agricultura de precisão passam a integrar uma cadeia em que manejar o solo também é um problema de engenharia.

Solo também começa a interferir na previsibilidade das fábricas

A conexão com a indústria processadora é menos evidente, mas talvez seja ainda mais importante.

Uma fábrica de alimentos não compra “saúde do solo”.

Compra milho, soja, leite, carne, açúcar, óleo vegetal ou outras matérias-primas.

Porém, antes de chegar à fábrica, todas essas cadeias dependem de sistemas agrícolas capazes de continuar produzindo diante de estiagens, oscilações de insumos e limitações de fertilidade.

Nesse ponto, o solo funciona como uma espécie de infraestrutura biológica da cadeia produtiva.

Na publicação da USP, sistemas diversificados com plantas de cobertura são associados a maior produção de biomassa, melhor ciclagem de nutrientes e maior resiliência. Em experimentos de longa duração citados pelo pesquisador Rodrigo Almeida, sistemas com plantas de cobertura e capins tropicais tiveram ganhos de produtividade em relação ao pousio e melhoraram indicadores como carbono, matéria orgânica e atividade enzimática do solo.

Para uma agroindústria, maior estabilidade na produção primária pode significar potencialmente menor risco de falta de matéria-prima, menos volatilidade de qualidade e melhor utilização da capacidade fabril.

Não é uma relação automática: clima, preços, logística e muitos outros fatores continuam determinando a oferta.

Mas o desempenho industrial começa muito antes do portão da fábrica.

Outra pesquisa mostra que o carbono pode aumentar até um metro de profundidade

A mesma edição da Soil Health News apresenta outra evidência dessa relação entre manejo e funcionamento do sistema agrícola.

Pesquisadores avaliaram áreas de vegetação natural, pastagem, integração lavoura-pecuária-floresta e soja sob plantio direto em Nova Odessa, no interior paulista.

Na conversão de uma pastagem extensiva para um sistema de integração lavoura-pecuária-floresta, o estoque de carbono no perfil de zero a um metro passou de aproximadamente 107 para 135 toneladas de carbono por hectare.

A taxa de acúmulo estimada chegou a 5,38 toneladas de carbono por hectare ao ano considerando todo o perfil avaliado.

Os autores associam o resultado à combinação de árvores, gramíneas e culturas anuais, que amplia a entrada de raízes, resíduos e outros materiais orgânicos no solo.

Já na área convertida de pastagem para soja em plantio direto, as maiores diferenças apareceram abaixo dos primeiros 30 centímetros.

Entre 30 e 100 centímetros, o estoque passou de aproximadamente 54,3 para 69,6 toneladas de carbono por hectare.

Isso traz uma advertência importante também para empresas interessadas em métricas ambientais: olhar somente para a superfície do solo pode esconder parte significativa das mudanças provocadas pelo sistema de produção.

Do campo à fábrica, há uma cadeia inteira afetada pela mesma decisão

O principal ensinamento da publicação talvez seja justamente esse.

Escolher uma cultura de cobertura pode parecer uma decisão estritamente agronômica.

Mas ela pode alterar o aproveitamento de fertilizantes, a quantidade de biomassa, a necessidade de determinados implementos, a compra de sementes, a estabilidade produtiva e até os indicadores ambientais associados à matéria-prima.

A cadeia pode ser vista de forma simplificada:

fertilizantes e corretivos → sementes e bioinsumos → máquinas e equipamentos → produção agrícola → armazenagem e logística → processamento industrial → alimentos, rações, combustíveis e outros produtos.

Uma mudança de eficiência no início dessa sequência pode se propagar pelos demais elos.

É por isso que pesquisas sobre ciclagem de nutrientes interessam não apenas ao produtor rural.

Elas também interessam às indústrias que vendem para ele e às fábricas que dependem daquilo que ele produz.

O solo começa a ser tratado como ativo produtivo

Por muito tempo, aumentar a produtividade significou principalmente adicionar insumos ao sistema.

Os estudos reunidos pela USP sugerem uma lógica complementar: compreender melhor os nutrientes, o carbono, as raízes e os microrganismos que já fazem parte desse sistema.

Isso não substitui fertilizantes, máquinas ou tecnologia industrial.

Ao contrário.

Pode criar demanda por uma agricultura tecnologicamente mais sofisticada, em que produtos industriais precisam funcionar em conjunto com processos biológicos.

Em um país que gastou mais de US$ 15 bilhões importando fertilizantes químicos em 2025, qualquer avanço consistente na eficiência de uso desses nutrientes ganha importância econômica muito além dos limites de uma propriedade rural.

Para a agroindústria, há uma mudança de perspectiva importante: a produtividade da fábrica começa no solo — e parte da competitividade industrial pode estar escondida alguns centímetros abaixo dele.

Fonte científica principal: Soil Health News – Manejo do solo e ciclagem de nutrientes, CCARBON/USP e Brazilian Soil Health Partnership, setembro de 2026. A publicação reúne, entre outros trabalhos, estudos sobre estoque de carbono em diferentes sistemas de manejo e recuperação de fósforo legado por plantas.